Aerofilatelia

FONTE: Filacap
Francisco Firmino de Araújo

 

Logo no início das malas postais aéreas, lá pela segunda década do século XX, na Europa, e nos anos 20 na América do Sul, os correios passaram a emitir selos destinados especialmente a estas malas aéreas, isto é, os próprios selos traziam, impressas, indicações como “Correo aereo” (países de língua Espanhola), “Air mail” (países de língua inglesa), afinal os “Flugpost” da Alemanha etc. O Brasil emitiu em 1927 seu primeiro selo da categoria com uma sobrecarga na série oficial, de 1913 (efígie do Marechal Hermes) “Serviço aéreo”, e já em 1929 a primeira série definitiva, uma homenagem aos pioneiros da aviação, com a legenda “Serviço Postal Aéreo”. Esse franqueamento com selo especial durou muito tempo, até que, com o volume de correspondência a que chegamos, essa “discriminação” se democratizou... Nosso último selo aéreo foi em 1966, um selinho que marcou, por sinal, o centenário do pintor Eliseu Visconti.

Alguns países, entre eles Estados Unidos, ainda emitem selos aéreos, cremos que movidos mais por interesse filatélico... Não há dúvida que essas emissões encontram muitos adeptos, e criou-se a especialidade, que vinha sendo inscrita nas exposições no grupo de Aerofilatelia, sem dúvida, de maneira inadequada.

Vejam que é muito simples organizar uma coleção de aéreos. Basta a ordenação cronológica, por países e datas de emissão, e teremos uma coleção especializada de aéreos, montada ao sistema clássico.

Não é isso, porém, o que ocorre com a Aerofilatelia. A modalidade requer, pelo menos, razoáveis informações sobre a vida da sobrecarta coletada. Falamos em sobrecarta porque uma coleção “aerofilatélica”, é composta, essencialmente, de sobrecartas. E o colecionador deve conhecer seu “pedigree”, e possuir, inclusive, dados quanto a companhia aérea transportadora, e do vôo respectivo, geralmente marcado com belos carimbos sobre os envelopes voados.

Sem dúvida os conjuntos de filatelia mais valiosos (que começaram a formar um grupo dentro da classificação de Aerofilatelia) são os que agrupam envelopes transportados sob condições especiais da nave transportadora, aquelas que, por exemplo, sofreram acidentes. A esses envelopes os americanos denominam “crash covers” e deles até já foi editado catálogo especial.

Assim a Aerofilatelia oferece um campo apreciável de pesquisa e estudos ao filatelista mais caprichoso... Merece capítulo especial as peças salvas dos audaciosos vôos do cerco de Paris. Essas peças valem hoje até 600 dólares, dependendo do número de envelopes salvos de cada balão.

Chega a ser fascinante a classificação desses envelopes. Sabemos que o cerco da cidade de Paris durou de 23 de setembro de 1870 a 29 de janeiro de 1871, e os correios, com o fim de obterem contato com o “mundo lá de fora”, criaram um serviço de transporte de malas postais por meio de balões.

Durante o cerco 55 balões foram mandados ao ar, alguns deles com 500 quilos de correspondência. Desses 55 balões somente oito cumpriram integralmente suas missões. Os demais, ou caíram no mar, ou em território inimigo, e alguns até, arrastados pelos ventos, não deixaram marcas sobre a terra.

Aqueles que se perderam para sempre levaram no bojo a mala postal, como aconteceu com o “Ville d’Orleans”, balão tripulado pelos audazes Rollier e Bézier, este um engenheiro civil que se oferecera ao governo como voluntário. O “Ville d’Orleans” foi arrastado pelos ventos e foi cair na Noruega, sobre uma montanha de gelo, depois de uma angústia que durou 14h e 40 minutos e de percorrer 1235km a uma velocidade, tida à época como uma marca fantástica, de 90km por hora. Do “Ville d’Orleans” escaparam por milagre os intrépidos astronautas, em lances de coragem calculada. Mais isto seria uma outra história.

Algumas sobrecartas têm sido ofertadas em leilões internacionais como transportadas pelo “Ville d’Orleans”. (Do livro Ronda Filatélica, do mesmo autor) – (FILACAP 139 – SET/03)

 

 
 
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