Logo no início das malas postais aéreas,
lá pela segunda década do século
XX, na Europa, e nos anos 20 na América do Sul,
os correios passaram a emitir selos destinados especialmente
a estas malas aéreas, isto é, os próprios
selos traziam, impressas, indicações como
“Correo aereo” (países de língua
Espanhola), “Air mail” (países de língua
inglesa), afinal os “Flugpost” da Alemanha
etc. O Brasil emitiu em 1927 seu primeiro selo da categoria
com uma sobrecarga na série oficial, de 1913 (efígie
do Marechal Hermes) “Serviço aéreo”,
e já em 1929 a primeira série definitiva,
uma homenagem aos pioneiros da aviação,
com a legenda “Serviço Postal Aéreo”.
Esse franqueamento com selo especial durou muito tempo,
até que, com o volume de correspondência
a que chegamos, essa “discriminação”
se democratizou... Nosso último selo aéreo
foi em 1966, um selinho que marcou, por sinal, o centenário
do pintor Eliseu Visconti.
Alguns países, entre eles Estados Unidos,
ainda emitem selos aéreos, cremos que movidos mais
por interesse filatélico... Não há
dúvida que essas emissões encontram muitos
adeptos, e criou-se a especialidade, que vinha sendo inscrita
nas exposições no grupo de Aerofilatelia,
sem dúvida, de maneira inadequada.
Vejam que é muito simples organizar uma
coleção de aéreos. Basta a ordenação
cronológica, por países e datas de emissão,
e teremos uma coleção especializada de aéreos,
montada ao sistema clássico.
Não é isso, porém, o que
ocorre com a Aerofilatelia. A modalidade requer, pelo
menos, razoáveis informações sobre
a vida da sobrecarta coletada. Falamos em sobrecarta porque
uma coleção “aerofilatélica”,
é composta, essencialmente, de sobrecartas. E o
colecionador deve conhecer seu “pedigree”,
e possuir, inclusive, dados quanto a companhia aérea
transportadora, e do vôo respectivo, geralmente
marcado com belos carimbos sobre os envelopes voados.
Sem dúvida os conjuntos de filatelia mais
valiosos (que começaram a formar um grupo dentro
da classificação de Aerofilatelia) são
os que agrupam envelopes transportados sob condições
especiais da nave transportadora, aquelas que, por exemplo,
sofreram acidentes. A esses envelopes os americanos denominam
“crash covers” e deles até já
foi editado catálogo especial.
Assim a Aerofilatelia oferece um campo apreciável
de pesquisa e estudos ao filatelista mais caprichoso...
Merece capítulo especial as peças salvas
dos audaciosos vôos do cerco de Paris. Essas peças
valem hoje até 600 dólares, dependendo do
número de envelopes salvos de cada balão.
Chega a ser fascinante a classificação
desses envelopes. Sabemos que o cerco da cidade de Paris
durou de 23 de setembro de 1870 a 29 de janeiro de 1871,
e os correios, com o fim de obterem contato com o “mundo
lá de fora”, criaram um serviço de
transporte de malas postais por meio de balões.
Durante o cerco 55 balões foram mandados
ao ar, alguns deles com 500 quilos de correspondência.
Desses 55 balões somente oito cumpriram integralmente
suas missões. Os demais, ou caíram no mar,
ou em território inimigo, e alguns até,
arrastados pelos ventos, não deixaram marcas sobre
a terra.
Aqueles que se perderam para sempre levaram no
bojo a mala postal, como aconteceu com o “Ville
d’Orleans”, balão tripulado pelos audazes
Rollier e Bézier, este um engenheiro civil que
se oferecera ao governo como voluntário. O “Ville
d’Orleans” foi arrastado pelos ventos e foi
cair na Noruega, sobre uma montanha de gelo, depois de
uma angústia que durou 14h e 40 minutos e de percorrer
1235km a uma velocidade, tida à época como
uma marca fantástica, de 90km por hora. Do “Ville
d’Orleans” escaparam por milagre os intrépidos
astronautas, em lances de coragem calculada. Mais isto
seria uma outra história.
Algumas sobrecartas têm sido ofertadas
em leilões internacionais como transportadas pelo
“Ville d’Orleans”. (Do livro Ronda Filatélica,
do mesmo autor) – (FILACAP 139 – SET/03)